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Onde foi parar a mulher? A perda de identidade na maternidade e o peso invisível da carga mental
Descubra como o esgotamento da carga mental gera a perda de identidade na maternidade. Leia o ensaio inédito de Helena Marcondes na Dharma Editora.
ENSAIOS & SOCIEDADEQUEM PAGA A CONTA?
Helena Marcondes
9/2/20262 min ler
Existe um momento preciso na rotina exaustiva em que a casa finalmente silencia. É tarde da noite. O corpo pede descanso, mas a mente continua operando em ritmo de torre de controle. É nesse instante que surge, inevitável, a pergunta silenciosa: onde foi parar a mulher que existia antes daqui?
Antes dos filhos, havia planos, silêncios produtivos, leituras até a última página, projetos em andamento e uma individualidade desenhada por desejos estritamente próprios. Depois, instalou-se a figura da cuidadora universal — aquela cuja existência passa a ser medida, avaliada e validada exclusivamente pela sua capacidade de amortecer os impactos do mundo para os outros.
O modo sobrevivência e a asfixia da autonomia
A exaustão crônica decorrente da carga mental não se resume a noites mal dormidas. O seu dano mais cruel é a subtração do repertório interno.
O cérebro que gerencia cronogramas escolares, logística doméstica, imprevistos familiares e o suporte emocional de uma estrutura inteira deixa de ter espaço para o pensamento criativo, para o respiro ou para o devaneio. Nesses moldes, o famigerado "tempo livre" raramente é descanso real. Trata-se, na prática, de um breve intervalo silencioso usado unicamente para planejar a próxima obrigação. A autonomia deixa de ser um estado de ser e passa a ser uma lembrança distante.
A romantização do esgotamento
Essa asfixia não é um acidente biológico nem uma falha individual. É o resultado direto de um arranjo social que naturalizou a sobrecarga feminina e exime a estrutura coletiva — e a figura paterna — de suas responsabilidades fundamentais.
Quando a cultura contemporânea aplaude a "mãe multitarefa" ou a "guerreira que dá conta de tudo", ela está, na verdade, maquiando um sistema opressor. Celebra-se o sacrifício como se fosse sinônimo de amor, quando, na essência, é apenas a economia do cuidado operando à base do esgotamento gratuito das mulheres.
Reivindicando a própria história
Desconstruir essa engrenagem não é um ato de egoísmo, mas de sobrevivência psíquica. Exige coragem para romper com a culpa estrutural e recusar a premissa de que a anulação pessoal é o preço obrigatório da maternidade.
A pergunta central que orienta esta reflexão permanece em aberto, exigindo uma resposta coletiva: quem paga a conta dessa assimetria? Enquanto o custo for a perda da identidade e da vitalidade da mulher, a fatura continuará sendo injusta e impagável.
Sobre a Autora
Helena Marcondes é escritora, autora de livros e pesquisadora das dinâmicas contemporâneas da maternidade, da carga mental e da economia do cuidado. Através da união entre sociologia, psicologia e escrita terapêutica, investiga o impacto do trabalho invisível e das assimetrias parentais na psique feminina. Com outras obras literárias já publicadas, traz em seu novo projeto — "Quem Paga a Conta?", pela Dharma Editora — uma investigação profunda e necessária sobre a autoria e a autonomia feminina.




